De maloca em maloca, de Leandro Carneiro, teve lançamento na 35ª Reunião Brasileira de Antropologia
- Acervo de Rua

- 30 de jul.
- 4 min de leitura
Publicado pela Editora Hucitec, na coleção Antropologia Hoje, o novo livro apresenta uma etnografia das malocas de São Bernardo do Campo (SP) e propõe uma reflexão original sobre parentesco, política e cidade a partir das experiências da população em situação de rua.
A produção acadêmica sobre a população em situação de rua ganhou uma importante contribuição com o lançamento de De maloca em maloca, novo livro do antropólogo, pesquisador e ativista Leandro Carneiro.
A obra teve seu primeiro lançamento no dia 30 de maio, no Café Colombiano/La Libreria, em São Paulo, em um evento que reuniu pesquisadores, estudantes e interlocutores da pesquisa e contou com a presença do antropólogo José Guilherme Magnani.
Posteriormente, o livro também integrou a programação oficial de lançamentos da 35ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), realizada em julho de 2026, na Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, um dos principais encontros científicos da antropologia brasileira.
Publicado pela Editora Hucitec, na tradicional coleção Antropologia Hoje, o livro resulta de uma extensa pesquisa etnográfica desenvolvida junto às "malocas" da cidade de São Bernardo do Campo (SP), oferecendo uma leitura sensível e teoricamente sofisticada sobre as formas de sociabilidade produzidas nas ruas.
Resultado de anos de trabalho de campo, Leandro percorreu diferentes itinerários urbanos e construiu uma relação prolongada de convivência com seus interlocutores para compreender como as interações sociais estabelecidas nas “malocas” contribuem para pensar questões centrais da antropologia, como parentesco, política e vida urbana. Trata-se de um movimento analítico particularmente instigante, pois recupera um tema clássico da disciplina antropológica para interpretar dinâmicas profundamente contemporâneas.

Essa perspectiva dialoga com um importante deslocamento produzido pela antropologia nas últimas décadas. Se, durante muito tempo, a disciplina voltou seu olhar para sociedades consideradas distantes, a antropologia urbana consolidou as cidades como espaços privilegiados de investigação etnográfica. É nesse horizonte que De maloca em maloca se insere. Ao investigar as experiências da população em situação de rua, Leandro Carneiro não apenas recupera um dos debates mais clássicos da antropologia, o parentesco, mas o reinscreve em um contexto urbano atual. O livro demonstra que essa tradição analítica permanece fértil quando confrontada com novas formas de vida social, interrogando como relações de cuidado, pertencimento e reciprocidade são produzidas nas “malocas" e desafiando concepções convencionais sobre família e política.
O argumento central da obra é apresentado pelo próprio autor logo na introdução:
"Este livro parte do pressuposto de que as sociabilidades da vida nas ruas em São Bernardo do Campo engendram processos relacionais complexos que desafiam alguns conceitos de vida ordenada nas cidades, como família e política. Seu intuito é mostrar, com base na coletânea de textos etnográficos e em um extenso trabalho de campo e interlocução, o modo como atores produzem vínculos significativos e tensões expressivas, valendo-se das categorias analíticas de fazer família e fazer política."
A passagem sintetiza uma das principais contribuições da pesquisa. Em contraste com uma leitura recorrente nas políticas públicas, que frequentemente caracteriza a população em situação de rua como pessoas com "vínculos familiares rompidos ou fragilizados", Leandro desloca o problema para outra direção. Seu interesse não está apenas em compreender a ruptura com determinados arranjos familiares, mas em investigar como, no próprio processo de socialização vivido nas ruas, essas pessoas constroem novas formas de parentesco.

Mas a contribuição da obra não se limita ao parentesco. Ao investigar como essas pessoas fazem família, Leandro também analisa como elas fazem política. A política aparece nas formas de organização das “malocas”, nas negociações cotidianas, nas disputas por reconhecimento, nos mecanismos de mediação de conflitos, nas relações estabelecidas com o Estado e nas estratégias coletivas construídas para permanecer e viver na cidade.
Ao longo da narrativa, temas como violência, luto, morte, cuidado, sofrimento, solidariedade e resistência são tratados com grande densidade etnográfica e ponderações éticas de pesquisa. Por meio das experiências vividas e compartilhadas com pessoas que habitam esses territórios urbanos, Leandro nos oferece uma instigante reflexão.
Essa perspectiva faz com que De maloca em maloca ultrapasse a descrição de um universo social frequentemente invisibilizado. A obra interpela o leitor a repensar conceitos consolidados tanto na antropologia quanto nas políticas públicas. Ao demonstrar que pessoas frequentemente definidas apenas pela ausência — de moradia, de renda ou de vínculos familiares — produzem formas complexas de parentesco, pertencimento e organização política, Leandro Carneiro desloca o olhar da falta para a produção social da vida cotidiana.

Resultado da convergência entre pesquisa acadêmica, convivência etnográfica e trajetória militante, De maloca em maloca reafirma a importância da etnografia como instrumento para compreender as múltiplas formas de habitar a cidade. Mais do que investigar a população em situação de rua, o livro convida o leitor a reconhecer que as “malocas” são espaços onde se inventam modos de viver, de cuidar, de fazer família e de fazer política, ampliando de maneira significativa o campo de estudos sobre as experiências urbanas contemporâneas.
Livro: De maloca em maloca
Autor: Leandro Carneiro
Editora: Hucitec
Coleção: Antropologia Hoje




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