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Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) anuncia seu VI Congresso Nacional

Foto do escritor: Acervo de Rua
Acervo de Rua
há 2 dias
6 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

De Salvador a São Paulo, conheça um pouco dessa história de organização e luta por direitos.




📅 25, 26 e 27/11/2026


📍 SESC Vila Mariana — São Paulo/SP


Ao falar do primeiro congresso do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), realizado em Salvador, em 2012, Maria Lúcia traduziu em palavras o sentido daquele encontro. A eterna coordenadora, como muitos hoje costumam chamá-la, deixou registrado no jornal O Trecheiro, publicado em abril de 2012, o testemunho sobre a intensidade do momento.


“O Congresso nos deu força e alegria de não nos sentirmos mais sozinhos.”

Encontrar outras pessoas, partilhar trajetórias e descobrir que uma dificuldade atravessa muitas vidas gera, além de reciprocidade, um sentido de pertencimento necessário e certa unidade combativa de que as lutas sociais necessitam. Mais de uma década se passou e, agora, uma nova chamada aponta para a cidade de São Paulo, a grande metrópole brasileira, ou, como diria outro

baiano, aquela “que constrói e destrói coisas belas”. O VI Congresso Nacional do Movimento Nacional da População de Rua, previsto para novembro de 2026, nos convida a reivindicar as memórias desse percurso e a seguir construindo outras.


Por ora, ficaremos com um pouco da primeira parte, percorrendo (superficialmente) um patrimônio memorial que hoje acena para a capital paulista, mas, como as próprias pessoas em situação de rua costumam dizer, já “correu muito trecho”. Salvador (Bahia), Pontal do Paraná (Paraná), Belo Horizonte (Minas Gerais), Cidreira (Rio Grande do Sul) e Maceió (Alagoas) fazem parte dessa história. Abriram caminho para a possibilidade de tecer outros mundos, fertilizando possibilidades de outros amanhãs. Passear um pouco por essas veredas é a proposta das próximas linhas.


Salvador, 2012: a força de se reconhecer no outro


O encontro aconteceu de 19 a 21 de março de 2012, no Centro de Treinamento de Líderes, em Itapuã, Salvador. Seu tema anunciava uma posição: “Protagonizando histórias e garantindo direitos”. É importante, ao menos, destacar que o desembarque dessa caminhada em terras soteropolitanas foi marcado pelo fortalecimento das atividades do MNPR em nível nacional, sobretudo em outros estados brasileiros, tendo como marco o fatídico e doloroso Massacre da Sé.



Participantes do I Congresso, Salvador, março de 2012. Foto: Rose Barboza. Reprodução da capa de O Trecheiro, nº 206, abril de 2012.


Em Salvador, o encontro, para além das afetações, ganhou força documental. A reportagem de Léa Tosold e Rose Barboza, publicada em O Trecheiro — Notícias do Povo da Rua, registra a aprovação do regimento interno e da Carta de Princípios do MNPR. A capa da edição nº 206 conserva esse relato. Estabelecer princípios e regras era uma maneira de dar continuidade: eis que foi dado o primeiro passo. Criaram-se as referências às quais o movimento poderia recorrer.


A fala de Maria Lúcia, que abre a matéria supracitada, acrescenta outra dimensão a esse momento. Sua lembrança "da força de estar junto" ajuda a ler o congresso por dentro das relações coletivizadas e pela necessidade de fortalecê-las por meio da luta por direitos.


“Não basta querer, é necessário criar e fomentar oportunidades.”

O depoimento aproxima a palavra “direito” da vida que precisa torná-la possível. Ao menos, a julgar pelo registro jornalístico, esse é o tom que constituiu tal momento.




Pontal do Paraná, 2014: dar continuidade à luta


Dois anos depois, o enunciado do II Congresso trazia uma formulação curta, de alcance amplo: “O direito a ter direitos”. O encontro ocorreu de 28 a 31 de maio de 2014, na Associação Banestado, na região de Praia de Leste, em Pontal do Paraná (PR).


Faixa do II Congresso, Pontal do Paraná (PR), maio de 2014.


A leitura da programação do evento nos permite sinalizar que o espírito do encontro já olhava para os anos que viriam. A programação previa grupos de discussão, propostas ordenadas por prioridade e a votação de um plano de lutas para 2014–2016. Havia também momentos reservados à organização e à coordenação do movimento.


Escolher prioridades é um trabalho exigente. As necessidades chegam de muitos lugares, nesse caso, da diversidade das regiões brasileiras, e cada uma traz a urgência de quem a vive. Discutir essas demandas em conjunto implicou decidir por onde começar, como proceder e de que forma encaminhar uma proposta. É nessa passagem que uma experiência local pode entrar na agenda de todo o movimento. Organizava-se o fluxo. Burocratizava-se, no bom sentido da palavra, a luta.


O plano previsto para 2014–2016 dava a esse trabalho um horizonte que ultrapassava os quatro dias do congresso. Eis a necessidade de continuar conectados, mesmo geograficamente distantes. Esse tom indica uma preocupação estruturante com a unidade, a construção de uma gramática comum e a fé de que a coletividade é transformadora.


Participantes do II Congresso Nacional do MNPR, realizado em Pontal do Paraná (PR), de 28 a 31 de maio de 2014. Foto: Alderon Costa/Rede Rua.


Belo Horizonte, 2016: uma luta comum, muitas experiências


Em Belo Horizonte, a terceira edição voltou a reunir as demandas por direitos e as questões da organização interna. O III Congresso aconteceu de 16 a 19 de agosto de 2016, no Centro Mineiro de Referência em Resíduos (CMRR).


Cartaz do III Congresso, Belo Horizonte, 2016.



A programação incluía análise de conjuntura, grupos de trabalho, plenária e o debate sobre moradia. O nome da mesa “Minha Casa, Minha Luta” condensava uma questão que atravessa a trajetória do MNPR: as condições para superar as ruas e permanecer em uma casa. O encerramento, em 19 de agosto, também se ligava à jornada de luta da população em situação de rua. Um agosto simbólico de Luto e Luta.





Delegação do Paraná no III Congresso, Belo Horizonte, 2016. Fonte: Cefuria.


Cidreira, 2018: o trabalho de manter a organização de pé


Em Cidreira, no litoral do Rio Grande do Sul, a tarefa de cuidar da organização passou a integrar o próprio nome do encontro: IV Congresso Nacional de Organização e Fortalecimento do Movimento Nacional da População de Rua. O encontro foi realizado de 22 a 25 de maio de 2018, conforme indica o cartaz.



A programação contou com a escuta das demandas de cada região e a discussão sobre a sustentação financeira, a Carta de Princípios e o regimento interno. Mulheres e pessoas LGBT, direitos humanos e políticas de saúde, habitação, educação, segurança, trabalho e renda compunham os demais eixos discutidos. Ao final, uma plenária reuniu as propostas, montando, mais uma vez, uma agenda política de lutas.


Manter uma organização exige um trabalho que costuma aparecer pouco em sua história pública. Uma espécie de olhar-se no espelho, ainda mais depois de já ter percorrido três encontros. Há recursos a obter, deslocamentos a viabilizar e atividades a sustentar. É necessário continuar, sobretudo, mantendo a autonomia.


Voltar à Carta de Princípios e ao regimento significava abrir espaço para olhar a própria organização. O que precisava ser mantido? O que exigia nova discussão? Princípios e regras retornavam à pauta junto com as demandas trazidas pelas regiões. Fortalecer o MNPR passava também por examinar seus próprios modos de atuar.


Maceió, 2022: construir a cidade com quem vive nas ruas


Quatro anos depois de Cidreira, o cartaz da quinta edição reuniu democracia e direito à cidade na mesma convocação. O V Congresso foi realizado em Maceió, de 21 a 23 de setembro de 2022, com o tema “Democracia: Direito à Cidade com a População de Rua”. A abertura ocorreu no Teatro Deodoro; outras atividades, no Estádio Rei Pelé.



Cartaz do V Congresso, Maceió (AL), setembro de 2022.


Há uma escolha política na palavra “com”. Ela coloca a população de rua na construção do direito à cidade e convida a pensar sua participação nas decisões públicas. Pela primeira vez, a cidade perde certo tom passivo. A moradia está no centro dessa discussão, acompanhada pelo acesso aos serviços e aos espaços urbanos. É a vida na cidade, em suas muitas dimensões, que entra em pauta. E, dessa vez, pautada pelos “rebeldes urbanos”.


Os quatro anos entre Cidreira e Maceió lembram, também, que a realização dos congressos não segue um calendário automático de encontros a cada dois anos. As dificuldades das mais diversas ordens afetam essa periodicidade. Mas, por outro lado, podemos sinalizar que o tom de resistência permanece a cada edição concluída. A rua insiste em lutar. É difícil não reconhecer essa dimensão.


São Paulo, 2026: o que a memória leva ao próximo encontro


O anúncio da VI edição em São Paulo herda esse patrimônio: reunir pessoas, discutir caminhos e tentar sustentar, nas bases, o que foi construído em conjunto. Especialmente porque foi em São Paulo que tudo começou. O início das atividades do MNPR. Certamente, as cinco edições anteriores deixam memórias, trajetórias, construções e perguntas em aberto. O encontro é, em parte, um momento especial para tentar respondê-las.


Na lembrança de Salvador, Maria Lúcia fala da força de não se sentir mais sozinha. Anos depois, o cartaz de Maceió coloca a população de rua na construção do direito à cidade. Entre uma frase e outra, há princípios discutidos, prioridades em disputa e o esforço de manter uma organização.


Isso sem contar os diversos desafios acumulados em todos esses anos e os novos desafios que se colocam hoje, em suas urgências. Sobre esse tópico, pouco falamos, propositalmente. Afinal, em novembro, teremos mais um espaço para discuti-los, abordá-los e, mais uma vez, construir estratégias para seguir lutando. Acredito que esse seja o maior legado construído por todas as edições. Acredito que São Paulo seja o melhor lugar para repensarmos outros começos.

 
 
 

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