top of page
Buscar

o IBGE Aprendendo a contar

Foto do escritor: Acervo de Rua
Acervo de Rua
10 de set.
9 min de leitura

O que já é possível afirmar sobre a primeira prova piloto do Censo Nacional da População em Situação de Rua


A primeira prova-piloto do Censo Nacional da População em Situação de Rua terminou depois de cinco dias de trabalho em Manaus, Salvador, Belo Horizonte, Goiânia e Florianópolis. O próprio IBGE começou a divulgar, em 8 e 9 de setembro, impressões específicas de cada cidade. Elas acrescentam substância ao que já se sabia sobre a preparação: Belo Horizonte registrou problemas de dimensionamento, roteiros e tempo de questionário; Salvador testou uma saída diurna para observar a dispersão; Goiânia expôs barreiras linguísticas e a necessidade de intérpretes, inclusive em Libras; Manaus relatou receptividade, entrada em abrigos e desafios de segurança; e Florianópolis reuniu dificuldades de logística, clima e horários. Ainda não há, porém, um balanço nacional com números comparáveis de entrevistas, recusas, cobertura ou possíveis duplicidades.


O IBGE apresenta o futuro Censo Nacional como a primeira operação estatística nacional dedicada exclusivamente a esse segmento. O objetivo é contar e caracterizar demográfica e socioeconomicamente as pessoas em situação de rua, produzindo informação padronizada e comparável para orientar políticas públicas.




A divulgação posterior à coleta permite ir além do anúncio da operação. As matérias do IBGE sobre as cinco capitais mostram que o Instituto já está registrando aprendizados qualitativos do campo, mas também deixam clara a distância entre uma avaliação local e um resultado estatístico nacional. O que aparece agora são problemas concretos de busca, abordagem, segurança, acessibilidade e logística; a consolidação técnica desses achados ainda está por vir.


O que o projeto pretende contar


A proposta parte da definição da Política Nacional para a População em Situação de Rua, instituída pelo Decreto nº 7.053 de 2009. O decreto descreve um grupo heterogêneo, marcado pela pobreza extrema, por vínculos familiares fragilizados ou interrompidos e pela ausência de moradia convencional regular, que utiliza logradouros públicos, áreas degradadas e unidades de acolhimento como espaço de moradia, sustento ou permanência provisória.


Para tornar esse conceito operacional, a página metodológica do IBGE informa como referência a pessoa que tenha dormido nas ruas, em instituições ou em ocupações não residenciais por pelo menos uma noite nos sete dias anteriores, considerando a data de referência da coleta. É uma regra de inclusão criada para permitir uma operação estatística; ela não pretende resumir toda a experiência social de viver em situação de rua.


As cinco capitais foram escolhidas para colocar o projeto diante de configurações urbanas distintas e cobrir as cinco regiões do país. A comparação abaixo não deve ser lida como ranking de desempenho. Ela organiza o que foi divulgado sobre cada campo e indica qual problema metodológico aparece com mais nitidez em cada caso.


Manaus

Em Manaus, o próprio IBGE informou que mais de 80 profissionais percorreram a capital, principalmente à noite, para testar questionários e estratégias de abordagem. A coordenação considerou a operação bem-sucedida, mas identificou pontos de melhoria para a pesquisa prevista para 2028. A gerente de Povos e Comunidades Tradicionais do Instituto relatou alta receptividade, entrevistas nas ruas e entrada em abrigos — um sinal de que a operação precisa alcançar formas distintas de permanência.


O campo também expôs a desigualdade espacial da busca: enquanto algumas equipes encontraram grandes concentrações de pessoas, outras percorreram áreas extensas até realizar abordagens. Na avaliação final, apareceram como temas de aperfeiçoamento o treinamento, a comunicação entre equipes, o dimensionamento dos grupos, a logística dos veículos e a segurança. O IBGE informou que a próxima prova-piloto deverá alcançar pelo menos 12 cidades e regiões metropolitanas, incluindo municípios do interior e áreas transfronteiriças.


O campo também registrou uma situação que expõe os limites da oposição simples entre rua e domicílio: os recenseadores visitaram um prédio comercial no bairro da Saúde ocupado por mais de 100 pessoas, entre elas 52 crianças. A reportagem cita ainda uma estimativa inicial de aproximadamente 836 pessoas para a área pesquisada, baseada em levantamento municipal de 2023. Esse número serviu como referência territorial; não corresponde ao que o piloto contou.


Salvador

Salvador ofereceu um teste de alta densidade urbana e de grande variedade morfológica. Segundo o IBGE, foram quatro dias de coleta noturna e, no último dia, uma saída diurna no bairro da Pituba e no Mercado das Sete Portas. O objetivo da mudança de turno foi observar como localizar pessoas em situação de rua quando a cidade retoma suas atividades e a presença se torna mais dispersa. Em cinco dias, a operação realizou cerca de 80 roteiros, cobrindo o município dividido em quatro zonas, com 51 participantes do IBGE, além de observadores e pontos focais.


O campo também registrou uma situação que expõe os limites da oposição simples entre rua e domicílio: os recenseadores visitaram um prédio comercial no bairro da Saúde ocupado por mais de 100 pessoas, entre elas 52 crianças.


Belo Horizonte

Em Belo Horizonte, o IBGE informou que a coleta percorreu áreas centrais e periféricas, além de abrigos e instituições de acolhimento. A equipe contou com 40 pessoas: 30 recenseadores, cinco supervisores e cinco coordenadores. A capital foi escolhida por ter uma rede institucional estruturada e experiência em contagens municipais anteriores; a prefeitura apoiou a organização de informações sobre locais de incidência e indicou equipes que atuam na rua.A lição possível é metodológica. O turno altera o território visível: de noite, a permanência pode aparecer mais concentrada; de dia, a circulação comercial pode dispersar as pessoas e deslocar os pontos de abordagem. Ao lado disso, a visita ao prédio ocupado mostra como a operação precisa tratar abrigos, ocupações e pontos de circulação sem transformar uma situação encontrada em total da cidade.


A reunião de avaliação realizada ao fim do campo é, até aqui, a descrição oficial mais detalhada dos ajustes necessários. O IBGE apontou como pontos positivos a atuação dos pontos focais e as reuniões de pré-abordagem com instituições de acolhimento. Como aspectos a aprimorar, registrou o tamanho das equipes, os roteiros de deslocamento e a complexidade do questionário. Segundo o coordenador operacional, o tempo de aplicação fez com que alguns informantes não chegassem ao fim da entrevista; a logística das vans, por outro lado, funcionou bem para o deslocamento e a segurança.


O teste mineiro torna explícita a relação entre registros, rede de serviços e território: os cadastros e os parceiros ajudam a planejar a busca, mas não substituem a ida a campo nem garantem que quem não acessa os serviços seja localizado. Também mostra que a qualidade do dado depende do tempo disponível para ouvir, não apenas da existência de um formulário.


Goiânia

Em Goiânia, o IBGE dividiu a cidade em quatro zonas e traçou rotas com apoio de instituições parceiras. De segunda a quinta-feira, seis equipes saíram a partir das 19 horas, distribuídas entre cinco vans e um carro volante, que alcançava locais identificados fora dos roteiros prévios; na sexta-feira, a coleta foi avaliada à luz do dia. A configuração urbana planejada e a expansão periférica foram usadas para testar o zoneamento diário e a influência da mobilidade na cobertura.


A avaliação oficial também registrou um problema de confiança: um morador recusou responder por acreditar que os recenseadores eram policiais disfarçados. O uso do colete azul-escuro foi associado a essa percepção, e surgiu a sugestão de substituí-lo por uma camiseta polo branca com a logomarca do IBGE. A participação de pontos focais, acolhimentos e organizações da sociedade civil aparece, assim, como parte da própria qualidade da entrevista.



Florianópolis

Florianópolis representou a Região Sul e encerrou o campo com uma avaliação oficial do IBGE. O Instituto reforçou que a etapa não tinha como objetivo produzir estatísticas, mas aperfeiçoar métodos, procedimentos e estratégias de abordagem. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina informou que a escolha considerou a condição insular, a mobilidade e a sazonalidade do fluxo migratório associado ao turismo.


O balanço local apontou logística complexa, condições climáticas adversas e horários diferenciados como desafios. A operação mobilizou aproximadamente 70 profissionais em seis equipes, incluindo uma volante, além de cerca de 20 observadores e dez pontos focais. O mapeamento prévio foi feito com a prefeitura, e representantes de movimentos e instituições ajudaram na aproximação com as pessoas entrevistadas.


A cidade introduz uma pergunta que vale para todo o projeto: como reduzir omissões e duplicidades quando as pessoas circulam, quando a permanência muda ao longo do dia ou quando a cidade recebe fluxos sazonais? O material oficial não apresenta um número da população contada nem uma taxa de desempenho do instrumento. Seu valor está em registrar o peso do fator humano, do conhecimento do território e da adaptação da abordagem.


O que já é possível afirmar

A primeira prova-piloto mostrou que o Censo Nacional não será apenas uma aplicação de questionários. A operação depende de uma base territorial específica, de roteiros, de horários, de mediadores e de estratégias para alcançar pessoas em situações diferentes. As avaliações oficiais também mostram que a qualidade do dado começa antes da resposta: passa pelo treinamento, pela identificação da equipe, pela segurança, pelo tempo de escuta e pela possibilidade de comunicação em diferentes línguas e formas.


A comparação entre as capitais permite uma leitura crítica, mas localizada. Manaus ilumina a logística, os abrigos e a segurança; Salvador torna evidente o efeito do turno e a variedade de formas de habitar e circular; Belo Horizonte explicita o custo de um questionário longo e a importância dos pontos focais; Goiânia destaca acessibilidade, confiança e comunicação; Florianópolis expõe os efeitos da mobilidade, do clima e da sazonalidade. Essas são pistas de trabalho, não conclusões estatísticas sobre os municípios.


O futuro censo pode mudar a forma como o Estado brasileiro enxerga as pessoas em situação de rua, mas esse efeito dependerá das escolhas feitas antes da contagem. A estatística será tão abrangente quanto a definição operacional, o mapeamento, os horários, a abordagem e a capacidade de alcançar quem não aparece nos registros nem permanece em um ponto previsível. As avaliações recém-publicadas tornam esse risco visível: localizar é uma decisão territorial; entrevistar é uma decisão de confiança; comparar é uma decisão de padronização.


Por isso, o balanço mais honesto até aqui é também o mais modesto: o IBGE testou uma maneira nova de procurar e começou a tornar públicos os problemas encontrados. As cinco cidades não entregaram uma prévia do número nacional. Elas colocaram a metodologia diante de muitos problemas concretos de cobertura. O desafio está posto.


Fontes consultadas

1. IBGE — Censo Nacional da População em Situação de Rua — Página metodológica e cronograma do Censo Nacional da População em Situação de Rua. Consulta em 10/09/2026.

2. IBGE — É falso que o IBGE tenha divulgado pesquisa sobre cidades com maiores populações em situação de rua — Nota de esclarecimento sobre a inexistência de rankings municipais do IBGE e previsão de resultados do censo. Publicada em 25/05/2026 e atualizada em 08/06/2026.

3. IBGE — Oficinas participativas fecham o Workshop de Experiências em Censos de População de Rua — Oficinas participativas e discussão da metodologia com movimentos sociais, pesquisadores e órgãos públicos. Publicada em 16/04/2026.

4. IBGE — Realiza lançamentos regionais do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua — Lançamentos regionais do projeto. Publicada em 22/04/2026 e atualizada em 24/04/2026.

5. IBGE — Primeira prova-piloto em Minas Gerais — Lançamento oficial da primeira prova-piloto em Minas Gerais. Publicada em 26/06/2026.

6. IBGE — Encerra coleta e faz avaliação da PP1 em Belo Horizonte — Encerramento e avaliação local da primeira prova-piloto em Belo Horizonte, com registro de pontos positivos e aspectos a aprimorar. Publicada em 08/09/2026.

7. IBGE — Com coleta diurna, Salvador encerra a PP1 — Encerramento da primeira prova-piloto em Salvador, incluindo teste de coleta diurna, cerca de 80 roteiros e reunião de balanço. Publicada em 08/09/2026.

8. IBGE — Em Goiânia, a prova-piloto destacou a acessibilidade — Avaliação da primeira prova-piloto em Goiânia, com acessibilidade, Libras, barreiras linguísticas, pontos focais e ajustes de abordagem. Publicada em 08/09/2026.

9. IBGE — Prova-piloto em Manaus mobiliza mais de 80 profissionais — Avaliação da prova-piloto em Manaus, com receptividade, entrada em abrigos, desafios de segurança e planejamento da próxima etapa. Publicada em 09/09/2026.

10. IBGE — Prova-piloto é concluída em Florianópolis — Encerramento e avaliação da prova-piloto em Florianópolis, com desafios de logística, clima, horários, mapeamento e abordagem. Publicada em 09/09/2026.

11. Planalto — Decreto nº 7.053 de 2009 — Decreto nº 7.053, de 23 de dezembro de 2009, que institui a Política Nacional para a População em Situação de Rua.

12. Prefeitura de Belo Horizonte — BH recebe prova-piloto do 1º Censo Nacional — Relato institucional sobre a operação em Belo Horizonte. Publicado em 04/09/2026.

13. Assembleia Legislativa de Santa Catarina — Censo da População em Situação de Rua tem teste em Florianópolis — Reportagem sobre o teste em Florianópolis e suas características territoriais. Publicada em 01/09/2026.

14. Jornal Opção — Saiba como estão sendo os testes em Goiânia — Reportagem sobre a coleta, os grupos focais, as equipes e o mapeamento preliminar em Goiânia. Publicada em 02/09/2026.

15. Encontra Goiânia — Casa de acolhimento recebe prova-piloto — Relato local sobre a busca em ruas, acolhimentos e áreas ocupadas em Goiânia. Publicado em 01/09/2026.

16. Portal Amazônia — Manaus é única capital do Norte a participar da prova-piloto — Reportagem sobre mobilização, coleta noturna e avaliação preliminar em Manaus. Publicada em 09/09/2026.

17. Amazonas Atual — Manaus recebe teste do primeiro Censo da População de Rua — Relato local sobre equipes, roteiros, zonas e turnos da operação em Manaus. Publicado em 02/09/2026.

18. Bahia.PontoCom — IBGE inicia primeira prova-piloto em Salvador — Relato local sobre equipes e participação institucional na abertura do campo em Salvador. Publicado em 31/08/2026.

19. Núcleo de Estudos Tributários — Recenseadores percorrem a área central de Salvador — Relato local sobre a Zona 1, os percursos centrais e o prédio comercial ocupado. Publicado em 05/09/2026.


 
 
 

Comentários


acervo-de-rua-selo-cabecalho-a-branco.jpeg

© 2035 por Acervo de Rua.

REDES SOCIAIS

  • Instagram
  • YouTube

PARCEIROS

​

marcas-parceiros-fundo-preto.jpeg
bottom of page