IBGE prepara o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua Pesquisa inédita deverá ser realizada em 2028 e já passa por provas-piloto para testar metodologia, questionários e estratégias d

Atualizado: 26 de jul.
O Brasil começou a construir o seu Censo Nacional da População em Situação de Rua, iniciativa conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em articulação com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, governos locais, pesquisadores, organizações da sociedade civil e movimentos sociais. A operação nacional está prevista para 2028, enquanto o ano de 2026 está sendo dedicado à preparação metodológica e à realização das primeiras provas-piloto.
O novo levantamento pretende produzir informações territorialmente detalhadas sobre o número de pessoas em situação de rua, seu perfil sociodemográfico e suas condições de vida. A expectativa é que os dados subsidiem o planejamento, a execução e o monitoramento de políticas públicas nas áreas de moradia, saúde, assistência social, trabalho, educação, documentação civil e direitos humanos.
Um censo construído por etapas
A preparação da pesquisa ganhou maior visibilidade em abril de 2026, quando o IBGE realizou, no Rio de Janeiro, o Workshop de Experiências de Censos de População em Situação de Rua. A atividade reuniu especialistas, gestores públicos, representantes de movimentos sociais e pessoas com experiência na realização de levantamentos municipais.
O objetivo foi conhecer metodologias já aplicadas em diferentes cidades e discutir os principais desafios de uma operação censitária nacional. Entre esses desafios estão a mobilidade das pessoas, a diversidade dos locais de permanência, os diferentes horários de circulação, a necessidade de evitar dupla contagem e a construção de vínculos de confiança entre entrevistadores e participantes.
A participação social possui especial importância nesse processo. O conhecimento acumulado pelas pessoas em situação de rua, pelos movimentos sociais, pelas equipes de abordagem, pelos Consultórios na Rua e pelos serviços socioassistenciais pode contribuir para identificar territórios, horários e formas adequadas de realização da coleta.
Esse procedimento também evita que a pesquisa seja planejada exclusivamente a partir de informações administrativas. Registros como o Cadastro Único são fundamentais, mas contabilizam somente as pessoas que acessaram determinados serviços ou foram inseridas nos sistemas públicos. Um censo precisa alcançar também aquelas que permanecem fora dessas redes institucionais.
Provas-piloto começaram em 2026
A previsão institucional é que os testes sejam realizados, no segundo semestre de 2026, em cinco municípios de cada grande região brasileira.
As provas-piloto não correspondem ainda ao censo nacional. Elas são operações experimentais destinadas a testar:
os questionários e dispositivos de coleta;
a definição dos territórios a serem percorridos;
os horários mais adequados para a abordagem;
a articulação com estados e municípios;
a composição e a capacitação das equipes;
os mecanismos de controle de qualidade;
as estratégias para reduzir omissões e duplicidades.
O caráter inédito da pesquisa exige equipes com formação específica e sensibilidade para abordar pessoas expostas a diferentes formas de violência institucional, discriminação e desconfiança em relação ao poder público. Segundo o IBGE, as experiências-piloto servirão para avaliar tanto os instrumentos de coleta quanto a organização das equipes técnicas e de campo.
Como será definida a área de coleta?
Uma das questões mais complexas é saber onde procurar. Diferentemente do censo domiciliar, no qual o recenseador percorre endereços previamente delimitados, a contagem da população em situação de rua exige a identificação anterior de praças, viadutos, terminais, marquises, mercados, áreas comerciais, unidades de acolhimento e outros locais de permanência.
Para preparar a operação, o IBGE informou que utilizará informações fornecidas pelos municípios e dados provenientes de registros administrativos. Esses materiais deverão auxiliar a construção de mapas e roteiros de campo, mas precisarão ser complementados pela participação dos atores que conhecem os territórios.
Esse ponto será determinante para a qualidade do resultado. Uma cartografia baseada somente nos serviços públicos pode deixar de fora pessoas que não frequentam equipamentos institucionais. Ao mesmo tempo, uma operação baseada exclusivamente em percursos noturnos pode não alcançar quem dorme durante o dia, trabalha à noite ou circula continuamente entre diferentes regiões.
O que o questionário poderá investigar?
A versão definitiva do questionário ainda depende dos testes e das avaliações metodológicas. Entretanto, as informações divulgadas pelo IBGE indicam que a pesquisa deverá permitir conhecer a distribuição territorial, o perfil sociodemográfico e as condições de vida dessa população.
É provável que a operação investigue dimensões como idade, sexo, cor ou raça, escolaridade, trabalho e renda, vínculos familiares, documentação, saúde, tempo de permanência nas ruas, acesso às políticas públicas e condições de moradia anteriores. A definição final dos quesitos, contudo, precisa ser acompanhada nas próximas etapas oficiais.
Mais do que produzir um número total, o desafio será reconhecer a heterogeneidade da população em situação de rua. Homens, mulheres, crianças, idosos, famílias, pessoas com deficiência, migrantes e pessoas LGBTQIA+ vivenciam formas distintas de circulação, violência, trabalho, cuidado e acesso aos serviços.
Por que esse censo é necessário?
Dados administrativos do Observatório Nacional dos Direitos Humanos apontaram que 298.071 pessoas em situação de rua estavam cadastradas no Cadastro Único em 2024. Esse número, embora expressivo, não corresponde a uma contagem censitária e não inclui necessariamente todas as pessoas que vivem nessa condição.
A ausência de uma pesquisa nacional produziu, durante décadas, uma dependência de estimativas, cadastros e censos municipais realizados com metodologias distintas. Isso dificulta a comparação entre cidades, o acompanhamento histórico e a distribuição adequada de recursos públicos.
A realização do censo nacional poderá criar uma referência comum para o país. Entretanto, sua relevância não dependerá somente da quantidade de pessoas identificadas. Será necessário observar se a metodologia conseguirá alcançar territórios pouco conhecidos, incorporar a mobilidade cotidiana, reconhecer diferentes formas de permanência e assegurar a participação efetiva da própria população em situação de rua.
Contar é um passo indispensável, mas não suficiente. Os resultados precisarão ser convertidos em políticas de moradia, proteção social, saúde, trabalho e garantia de direitos. O censo pode romper uma lacuna histórica das estatísticas brasileiras, desde que a produção de visibilidade não se encerre na publicação de números e seja acompanhada pelo reconhecimento das pessoas como sujeitos políticos e produtores da vida urbana.
Matéria atualizada em 26 de julho de 2026. O Acervo de Rua continuará acompanhando as provas-piloto, as definições metodológicas e o cronograma oficial da pesquisa.




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